António Leiras

 

António Leiras




Mário Leitão



António Leiras – António Joaquim Cerqueira Leiras – nasceu na freguesia de Sandiães, concelho de Ponte de Lima, no dia 12 de Agosto de 1940 e era um dos seis filhos de Francisco Castro Leiras, agente da PSP no Porto, e de Maria Cerqueira, residentes em Sandiães. Dois dos seus irmãos eram gémeos e morreram em bebés, facto que poderia ter contribuído para a sensibilidade que o caracterizava.

António Leiras era de facto dotado de uma sensibilidade especial, quase extrema, da qual deixou um rasto profundo quando faleceu em 1997. Da sua curta existência de 57 anos, ficaram marcas que a História dificilmente apagará. Muitos dos seus antigos colegas de balcão do Banco Borges & Irmão/BPI, onde se afirmou como funcionário competente e também zelador dos interesses dos seus clientes, na cidade do Porto e em Ponte de Lima, referem-no como seu defensor perante as veleidades, caprichos e autoritarismos de gerentes e directores insanos. Tendo privado vários anos com ele nesse contexto profissional, dou também testemunho da sua forma ímpar de aligeirar problemas e de aconselhar sabiamente os meus interesses.

Mas o que melhor recordo de António Leiras é a sua alma artística, que julgo ter podido tocar ao de leve quando promovi uma exposição das suas obras na Galeria de Arte da Casa do Castelo, por ocasião das Feiras Novas de 1993. Uma das imagens refere-se a esse acontecimento, e nela se vêem também sua esposa Maria Amélia, o Presidente da Câmara Fernando Calheiros, Rui Leitão Quintela e Maria Amorim Barros dos Santos, colaboradora da galeria.

Além das muitas dezenas de quadros a óleo que António Leiras pintou, tanto sobre tela como em diferentes madeiras, a sua obra pictórica envolve centenas de pinturas em aguarela, guache, lápis-de-cor, esferográfica, etc., a maior parte das quais são inéditas e fazem parte do património familiar. À escala artística a que estou habituado, a quantidade de pinturas que ele produziu é gigantesca! E perante esse facto, pergunto a mim mesmo como é que é possível a nossa sociedade pouco ou nada saber da sua obra!

Mas o interesse dos seus trabalhos não se deve à sua quantidade! Eles são sedutores, não tanto pelas técnicas utilizadas (trata-se de um autodidacta sem formação académica em Belas Artes e, por isso mesmo, merecedor de acrescidos encómios) mas sobretudo pelas mensagens satíricas e humorísticas que neles são transmitidos. António Leiras era um piadista puro, que usava o sarcasmo de forma mais irónica que mordaz, e nunca insultuosa. A sua pintura figurativa tem tanto de anedótico como de retrato nu e cru da muita fragilidade humana em que vivemos. Consegue num só retrato abordar a tolaria do povo, a malandrice dos inteligentes, o despotismo dos governantes e a estupidez global que enferma a sociedade moderna. Foi um mestre da zombaria e a sua obra há-de um dia ser inteiramente destapada e divulgada, porque quase se iguala, em termos de mensagem, à obra de Vilhena.

Curiosamente, a par da sua sensibilidade para a pintura, António Leiras foi um exímio poeta, oculto na divulgação dessa sua faceta, mas cheio de potencial para figurar nos anais da poesia limiana. Os seus versos incidem sobre as misérias políticas nacionais, sobre as vicissitudes profissionais, sobre algumas crenças do povo e, de um modo geral, são marcadamente sarcásticos, hilariantes, premunitivos. Alguém fará, certamente, um estudo da sua obra poética desconhecida, porque é muito perfeita sob o ponto de vista gramatical e muito interessante no seu conteúdo.

António Leiras casou em segundas núpcias, em 1977, com D. Maria Amélia Fernandes Marinheiro Leiras, de quem teve as filhas Liliana Antónia e Ana Margarida. Das primeiras núpcias, com D. Antónia Conceição Silva, natural de Mogadouro, teve a filha Alexandra, casada com Constantino Carvalho. Os seus cinco netos sentirão um dia grande orgulho pela obra poética e pictórica que o avô António lhes deixou.

Publicado no Jornal Cardeal Saraiva n.º 4589, de 22 de Outubro de 2015

 

Ponte de Lima no Mapa

Ponte de Lima é uma vila histórica do Norte de Portugal, mais antiga que a própria nacionalidade portuguesa. Foi fundada por Carta de Foral de 4 de Março de 1125, outorgada pela Rainha D. Teresa, que fez Vila o então Lugar de Ponte, localizado na margem esquerda do Rio Lima, junto à ponte construída pelos Romanos no século I, no tempo do Imperador Augusto. Segundo o Historiador António Matos Reis, o nascimento de Ponte de Lima está intimamente ligado ao nascimento de Portugal, inserindo-se nos planos de autonomia do Condado Portucalense prosseguidos por D. Teresa, através da criação de novos municípios. Herdeira e continuadora de um rico passado histórico, Ponte de Lima orgulha-se de possuir um valioso património histórico-cultural, que este portal se propõe promover e divulgar.

Sugestões