Ovídio Carneiro – Testemunho de Flora Silva, Ex-Vereadora da Cultura do Município de Viana do Castelo

 

Ovídio Carneiro – Testemunho de Flora Silva, Ex-Vereadora da Cultura do Município de Viana do Castelo



Flora Silva
Ex-Vereadora da Cultura do Município de Viana do Castelo



Quando o Dr. José Fernandes me convidou a dar o meu testemunho pedagógico sobre Ovídio Carneiro, meu colega de ofício na Escola Secundária de Santa Maria Maior de Viana do Castelo entre 1975/86, confesso que, assim de repente, me assomou a inquietação de não ter nada de especialmente significativo a dizer que pudesse acrescentar, como seria meu desejo, à comovente manifestação de amizade e reconhecimento artístico com que alguns companheiros dos bancos de escola desejavam celebrar o seu 83º aniversário.

Inquietação, porque o que permanecia na minha memória longínqua de professora era a imagem de um colega recatado e sereno, naturalmente empático, mas de tão parcas palavras que sempre me suscitou, logo a mim o seu contrário, um respeitoso acatamento da sua forma de ser, mais inclinada a observar e a ouvir do que do que a falar de si ou dos seus hobbies.

Sendo consabido o seu rigor profissional, a sua mestria pedagógica e a forma natural como intuía e incentivava o talento artístico dos seus discípulos, o que mais duradouramente registei foi a serenidade que dele emanava, a sua humildade intelectual e a sua simpatia tímida, traços que sempre identifiquei e respeitei como inerentes à sua personalidade reservada e introspetiva, mas nunca fria ou distante.

Apesar de vizinhos de ruas paralelas e de colegas de profissão durante uma década, só quando a reforma me bateu à porta, em 2009, é que passei a vê-lo mais amiudadamente a caminho da praia do Cabedelo, tranquila e vagarosamente a passo com o seu belíssimo cão. Foi só então que senti uma vontade atrevida de forçar conversa, de vencer a sua natural timidez, como se esse novo tempo fosse mais propício a libertar as amarras de uma longa e silenciosa amizade.

E foi assim que não raras vezes nos demos à conversa solta, eu abrandando caminhadas, ele suspendendo, por aprazíveis momentos, a contemplação plácida do mar imenso que tanto o inspirava. Então aí, trocamos impressões gostosas sobre o nobre mister de educar gerações e a responsabilidade de traçar destinos. Mas o mais surpreendente para mim foi descobrir que, para além da docência, Ovídio Carneiro tinha uma apaixonante e assinalável atividade como arquiteto projetista e como artista plástico e que eu desconhecia quase por completo.

Devo ainda confessar que só quando li o 38.º número da revista Limiana, de Junho de 2014, especialmente dedicada à inadiável missão de divulgar e homenagear o ilustre artista limiano, por ocasião do seu 76.º aniversário, é que verdadeiramente percebi a dimensão da sua multifacetada expressão artística, penalizando-me por, enquanto vereadora da cultura entre 1994 e 2009, não ter tido nunca oportunidade de aceder a esse espólio nem de incentivar o artista a reuni-lo e a expô-lo com a dignidade que a obra merecia. Considero, por isso, necessário e urgente dar continuidade à excelente e criteriosa pesquisa do Dr. Mário Leitão, solicitando depois às entidades competentes a divulgação que lhe é devida.

Enviando um abraço de parabéns ao amigo e ao artista, não posso deixar de relevar o papel fundamental da Revista Limiana e do Portal Ponte de Lima Cultural, superiormente dirigidos pelo Dr. José Fernandes, na sua incansável e imprescindível missão de reconhecer e divulgar os criadores culturais da Ribeira Lima. Nem posso também deixar de encarecer a exemplar amizade dos seus antigos companheiros de formação académica, forjada na Oficina de São José de Ponte de Lima e na Casa Pia de Lisboa, instituições maiores de solidariedade, educação e desenvolvimento que, ao longo de muitas gerações, souberam fazer de tantas crianças socialmente desfavorecidas cidadãos maiores deste país.

Bem hajam pelo tanto que fizeram para iluminar a notável obra artística de Ovídio Carneiro.

Março de 2021

Ponte de Lima no Mapa

Ponte de Lima é uma vila histórica do Norte de Portugal, mais antiga que a própria nacionalidade portuguesa. Foi fundada por Carta de Foral de 4 de Março de 1125, outorgada pela Rainha D. Teresa, que fez Vila o então Lugar de Ponte, localizado na margem esquerda do Rio Lima, junto à ponte construída pelos Romanos no século I, no tempo do Imperador Augusto. Segundo o Historiador António Matos Reis, o nascimento de Ponte de Lima está intimamente ligado ao nascimento de Portugal, inserindo-se nos planos de autonomia do Condado Portucalense prosseguidos por D. Teresa, através da criação de novos municípios. Herdeira e continuadora de um rico passado histórico, Ponte de Lima orgulha-se de possuir um valioso património histórico-cultural, que este portal se propõe promover e divulgar.

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