Ovídio Carneiro

 

Ovídio Carneiro


Artista, Arquitecto e Pedagogo

 



José Pereira Fernandes



Ovídio da Fonte Carneiro nasceu na vila de Ponte de Lima, a 27 de Março de 1938. Frequentou a 1.ª e a 2.ª classe na Escola da Avenida, e concluiu o ensino primário na Escola da Oficina de S. José, no dia 27 de Julho de 1951, tendo ficado aprovado com distinção no exame da 4.ª classe.

A grande sensibilidade para o desenho e a pintura que Ovídio Carneiro revelou durante o período escolar e nos dois anos posteriores levaram o então Presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima, Dr. Filinto Elísio de Morais, o Director da Oficina de S. José, Cónego Manuel José Barbosa Correia, e o General Norton de Matos a desenvolverem diligências concertadas no sentido de ser admitido na Casa Pia de Lisboa, para o que foram determinantes os dotes artísticos evidenciados por Ovídio em 1953, na execução de uma cópia, a guache, do óleo de Fausto Gonçalves existente no gabinete do autarca limiano, representando a Capela do Anjo da Guarda, localizada na margem direita do Rio Lima, junto à ponte medieval.

Entre outras diligências, destaca-se a carta de 24 de Setembro de 1953, dirigida pelo General Norton de Matos ao Provedor da Casa Pia de Lisboa, Dr. Pedro de Campos Tavares, na qual, depois de apresentar Ovídio Carneiro como “um rapazinho de 15 anos de idade, com notáveis qualidades artísticas e de inteligência, de boa índole, bem educado e muito simpático pelo seu porte e maneiras”, pedia “com o maior empenho” que o mesmo fosse admitido e apoiado por aquela Instituição, de modo que as suas qualidades se aproveitassem e se fizesse dele “um homem útil à sua Pátria e à humanidade inteira”.

Tendo ingressado na Casa Pia de Lisboa – Secção de Pina Manique – poucos dias mais tarde, em Outubro desse mesmo ano, Ovídio Carneiro frequentou e concluiu com elevado mérito o Curso de Arte Decorativa, sendo recordado como aluno “de convívio muito cordial com colegas e professores”, um “excelso casapiano”, “um fruto reluzente da feliz sementeira casapiana da década de 50” e um dos expoentes da “maravilhosa geração de ouro da Década de 50 da Casa Pia”.

Entre os inúmeros trabalhos de Ovídio Carneiro deste período áureo da sua formação artística destacam-se os desenhos de figura e ornato executados na Aula de Desenho, considerados de grande qualidade pelo Mestre Gil Teixeira Lopes, pela “coerência da sensibilidade dos objectos e percurso das saliências”, desenhos que ainda hoje se conservam no Centro Cultural Casapiano, a aguarela representando os alunos da Casa Pia a desfilarem em frente ao Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, exposta na Biblioteca-Museu Luz Soriano, da mesma Instituição, e o desenho oferecido em 1955 ao mesmo Director da Oficina de S. José, alegoria que simboliza esta Instituição.

Terminado o Curso de Arte Decorativa, Ovídio Carneiro ingressou na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa (ESBAL), onde frequentou o Curso de Pintura, tendo tido, entre outros, grandes Mestres como Álvaro Perdigão, Joaquim Correia, Artur Duarte, Martins Correia, Gil Teixeira Lopes e Leopoldo de Almeida.

Desta época, é digno de evocação o artigo do Jornalista Ricardo de Saavedra publicado no suplemento “Bazar” do Jornal “A VOZ”, de 16 de Fevereiro de 1963, reproduzido no Jornal “Cardeal Saraiva”, de 8 de Março do mesmo ano, e na Revista “LIMIANA” n.º 38, de Junho de 2014, do qual se transcrevem as seguintes passagens:

 “Ovídio da Fonte Carneiro tem vinte e quatro anos. É finalista do Curso Geral de Pintura da Escola Superior de Belas-Artes. Participou já em diversas exposições, quer na Escola que frequenta, quer na S. N. B. A., nos Salões Nacionais de Educação e Estética da M. P., na exposição da XXIV Missão Estética de Férias realizada em Beja e dirigida pelo Prof. Armando Lucena (onde apresentou o maior número de trabalhos representativos do catálogo). Foi também por diversas vezes galardoado com primeiros prémios nos Salões de Estética da M. P., nos Jogos Florais Universitários de Lisboa, etc. (…)

Dotado de extrema facilidade no desenho, disciplina em que sempre conseguiu as melhores classificações, Ovídio atingiu agora uma fase que diremos de transposição, procurando motivos de expressão nas directrizes inspiradora do mundo da cor. Esta sua característica ressalta-nos sobretudo na realização da paisagem. Os seus quadros do Minho têm os verdes, o sol, a alma e o folclore da província mais risonha do País. As telas do Alentejo, em contraposição, quebram no ritmo, estagnam, imprimem-nos calor nos nervos, solidão na alma. Ovídio ultrapassa a paisagem natural, atingindo a paisagem anímica ou humana. Senhor de desenho vigoroso, atinge momentos altos de perfeição no retrato. O seu figurativo predilecto oscila entre o estilizado de Rubens e o vigoroso de Rembrandt, se bem que guardando sempre cunho pessoalíssimo. Os seus nus, por exemplo, atraem os mais distraídos. Não tanto pelo aspecto sensual, mas pelo colorido exacto, pelas linhas concretas, pela vida interior das formas. A imagem ressalta nos fundos escuros, amorfos. Porque a Ovídio Carneiro interessa-lhe, sobretudo, delinear as formas, a expressividade dos gestos, que consegue com aparente facilidade e maneirismo novo.”

Exemplos do que Ricardo de Saavedra escreveu em Fevereiro de 1963 são, entre muitas outras obras de arte, o óleo “Regresso da Feira”, apresentado por Ovídio Carneiro na sua tese de licenciatura, concluída nesse ano, com a brilhante classificação de 18 valores, e os retratos também aqui reproduzidos de Albino Vieira da Rocha, Professor Catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa e primeiro Presidente da Assembleia-Geral do “Casa Pia Atlético Clube”, de Diogo Inácio de Pina Manique, fundador da Casa Pia de Lisboa, em 3 de Julho de 1780, de Catalina Pestana, ex-Provedora da mesma Instituição, do seu auto-retrato e ainda dos retratos dos membros do seu agregado familiar.

Depois de cumprido o serviço militar obrigatório no Exército Português, como oficial miliciano, que incluiu uma comissão de serviço em Angola, entre Fevereiro de 1967 e Março de 1969, Ovídio Carneiro regressou à Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa para fazer o curso de Arquitectura, que viria a concluir em 1975.

Sem pôr de parte a criação artística através das artes plásticas e da arquitectura, Ovídio Carneiro dedicou-se igualmente ao ensino, deixando marcas como notável pedagogo, especialmente no então Liceu Nacional de Viana do Castelo, onde leccionou disciplinas da área das artes, a partir de 1975.

Esta opção profissional levou recentemente o mesmo Mestre Gil Teixeira Lopes, Artista de eleição e personalidade marcante das Artes Plásticas portuguesas, que foi colega de Ovídio na Casa Pia de Lisboa, de1953 a 1955, e, mais tarde, seu Professor na ESBAL, a afirmar ter sido “um erro Ovídio Carneiro não se ter dedicado mais à pintura, o que o teria tornado numa grande individualidade no mundo da Arte, tanto a nível nacional como internacional”. Manifestou, no entanto, “compreensão pelas suas opções profissionais, face ao grande sofrimento por que passaram muitos artistas numa sociedade que não os colhia”.

Pintor essencialmente figurativo, com algumas incursões na arte abstracta, tirando partido da cor e do traço, Ovídio Carneiro participou ao longo da sua carreira artística em inúmeras exposições, foi distinguido com prémios de reconhecido mérito, com destaque para o Prémio Domingos Sequeira de Gravura, pela obra “Naufrágio”, e encontra-se representado em grande número de colecções públicas e privadas, cujo levantamento se torna imperioso fazer com urgência.

Do seu legado na arquitectura civil e religiosa destacam-se várias moradias, no Distrito de Viana do Castelo, e o Templo de Nossa Senhora do Minho, no alto da Serra d’Arga, inaugurado em 6 de Julho de 2008, notável obra de integração paisagística, inspirada numa pequena gruta de construção popular existente no local, em cujo interior se encontra ainda uma imagem de Nossa Senhora.

Ovídio Carneiro é também o autor dos cartazes das Feiras Novas de 1955, 1960, 1962, 2006 e 2015, sendo este uma reprodução do cartaz de 1960, bem como da capa do primeiro número da Revista LIMIANA, de Janeiro/Fevereiro de 2007, e das ilustrações do CD editado no mesmo ano com o Hino a Ponte de Lima e o Hino da Casa do Concelho de Ponte de Lima. Em reconhecimento desta notável concepção artística, feita a título rigorosamente pro bono, a Casa do Concelho de Ponte de Lima atribuiu a Ovídio Carneiro a categoria de Sócio Honorário, por deliberação unânime da Assembleia-Geral de 25 de Fevereiro de 2007.

Ovídio da Fonte Carneiro é casado com Maria Carminda Torres de Sá Carneiro, natural da freguesia de Forjães, concelho de Esposende, união de que nasceram dois filhos: Nuno Ovídio Sá da Fonte Carneiro e João Pedro Sá da Fonte Carneiro.

Sobre a vida e obra de Ovídio Carneiro pode ser consultado o n.º 38 da Revista LIMIANA, de Junho de 2014, onde, em 14 páginas profusamente ilustradas, foi prestada justa homenagem a este expoente do Património Cultural de Ponte de Lima.

 

Ponte de Lima no Mapa

Ponte de Lima é uma vila histórica do Norte de Portugal, mais antiga que a própria nacionalidade portuguesa. Foi fundada por Carta de Foral de 4 de Março de 1125, outorgada pela Rainha D. Teresa, que fez Vila o então Lugar de Ponte, localizado na margem esquerda do Rio Lima, junto à ponte construída pelos Romanos no século I, no tempo do Imperador Augusto. Segundo o Historiador António Matos Reis, o nascimento de Ponte de Lima está intimamente ligado ao nascimento de Portugal, inserindo-se nos planos de autonomia do Condado Portucalense prosseguidos por D. Teresa, através da criação de novos municípios. Herdeira e continuadora de um rico passado histórico, Ponte de Lima orgulha-se de possuir um valioso património histórico-cultural, que este portal se propõe promover e divulgar.

Sugestões