São Gonçalo

 

São Gonçalo

Escultura em madeira dourada e policromada - Século XVII
Capela de São Gonçalo, Arcozelo

 

Só quem o viu, o pode contar e crer. Se não têm filhos, a São Gonçalo os pedem; e se têm muitos, a São Gonçalo consultam se os hão de mandar à guerra, ou ao estudo, ou aplicar ao arado. Se hão de casar as filhas, São Gonçalo é o casamenteiro, e se os próprios pais, ou não podem, ou se descuidam de lhes dar estado, a lembrança que elas por modéstia se não atrevem a lhes fazer, a fazem em segredo ao santo, que como mais poderoso e vigilante pai, se não descuida. A ele encomendam os pastores os gados, e os lavradores as sementeiras: a ele pedem o sol, a ele a chuva: e o santo, pelo império que tem sobre os elementos, a seu tempo, e fora do tempo, os alegra com o despacho das suas petições.

Padre António Vieira, Sermão de São Gonçalo

 

José Velho Dantas

São Gonçalo de Amarante é um dos mais ilustres representantes da hagiografia portuguesa. E no entanto são densas as dúvidas sobre o seu percurso histórico, perdido algures, desde o século XIII, como em tantos outros santos, entre as brumas da lenda. De culto profundamente arreigado sobretudo no norte do país, estão-lhe atribuídos milagres portentosos, como a conversão dos pães em carvão. Mais do que Moisés, não só fez jorrar água do rochedo, como vinho. Amansou touros bravos, comunicou com os peixes, moveu penedos colossais.

No panegírico traçado pelo Padre António Vieira, em sermão pregado no Brasil, em que discursa sobre as “grandezas admiráveis” de Gonçalo, encontram-se os ecos do seu percurso lendário como menino, mancebo, varão, velho e bem-aventurado. Aí se alude ao evento prodigioso que foi o seu batismo, apenas com uma semana de vida, admirando, sem choro, uma imagem do Crucificado, sinal indubitável do seu futuro como homem de Religião. Já sacerdote, rumou como peregrino a Roma, a visitar os túmulos dos apóstolos Pedro e Paulo, e depois aos Lugares Santos da Palestina, aí permanecendo longos anos. Viveu os últimos anos como anacoreta, entre a oração e a penitência, e entrou em Guimarães para a Ordem dos Pregadores pela mão de São Pedro Telmo, outro glorioso português discípulo de São Domingos. Como “soube deixar o mundo antes que o mundo o deixasse”, regressou à sua ermida junto às águas do rio Tâmega, onde mais tarde foi erguido, por ordem de D. João III, o mosteiro que ostenta o seu nome, uma das raras obras da arquitetura renascentista em território português, em cuja igreja repousa o seu corpo.

A este passo, lendário ou não, da sua vida, em que pôde testemunhar a impetuosidade da corrente e os frequentes naufrágios dos que cruzavam aquele curso fluvial, foi associada a tradição que vê neste dominicano a edificação ou, pelo menos, o restauro da ponte em Amarante e, posteriormente, a sua proteção. Esta empresa de arquitetura (que o padre Jesuíta atribui ao poder da cítara de Gonçalo, à semelhança da antiga cítara de Orfeu, com cujo som moveu os materiais e animais necessários para erguer os muros de Tebas), talvez a que mais perpetuou a sua fama, não podia deixar de se repercutir na sua iconografia.

Costuma ser representado precisamente com uma maquete da ponte, algo que não sucede no exemplar aqui documentado, proveniente da capela em Arcozelo que leva o nome do santo, pequeno templo que as águas do Lima quase banham.

São Gonçalo, de face austera emoldurada pelo capuz, enverga o hábito dominicano, com capa escura e túnica branca. Nesta imagem, todavia, também devido à presença dos dourados, não se afigura tão notório o contraste de claro e escuro das duas vestes. Sobre a túnica cai o escapulário, que exibe motivos fitomórficos a dourado.

Apresenta somente o báculo de pastor (ou cajado de peregrino) na mão direita e o livro aberto na esquerda, apresentando a inscrição “Biato Gonçallo”, talvez um escrúpulo por parte de quem encomendou a imagem, sabedor de que Gonçalo, beatificado por Pio IV em 1561, não chegara à canonização. Assim não o entendeu o povo, que sempre o considerou um santo.

Ponte de Lima no Mapa

Ponte de Lima é uma vila histórica do Norte de Portugal, mais antiga que a própria nacionalidade portuguesa. Foi fundada por Carta de Foral de 4 de Março de 1125, outorgada pela Rainha D. Teresa, que fez Vila o então Lugar de Ponte, localizado na margem esquerda do Rio Lima, junto à ponte construída pelos Romanos no século I, no tempo do Imperador Augusto. Segundo o Historiador António Matos Reis, o nascimento de Ponte de Lima está intimamente ligado ao nascimento de Portugal, inserindo-se nos planos de autonomia do Condado Portucalense prosseguidos por D. Teresa, através da criação de novos municípios. Herdeira e continuadora de um rico passado histórico, Ponte de Lima orgulha-se de possuir um valioso património histórico-cultural, que este portal se propõe promover e divulgar.

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